Diário de uma paixão (a serenidade da Lua…)
Anoiteceu. Lá fora as estrelas cintilam por mim, à espera que eu abra a janela para lhes desejar boa noite. Cumpro o ritual a que lhes habituei. Num impulso, sento-me no parapeito da janela do meu quarto. Um lugar místico pelo seu simbolismo, onde várias vezes me eclipsei com um sorriso sobrenatural, e uma lágrima no canto do olho, que teimava em cair a conta gotas sempre que a perfeição do momento me completava.
Ouço um suspiro…
Olho em volta e não encontro a sua origem…
- Huguinhooooo…!!!
Chama-me uma voz dócil e serena, mas volto a não vislumbrar a sua fonte.
- Aqui em cima, tonto! Não me vês?
Percorro o céu num olhar, e encontro uma figura familiar a sorrir para mim.
- Estava a ver que hoje não me olhavas… o que se passa?
Envergonhado e cabisbaixo por não ter percebido mais cedo, respondo-lhe..
- Olá Lua, desculpa-me por não te visitar tão frequentemente como antes. O meu olhar tem estado perdido numa outra lua, num outro sorriso, num outro corpo, num outro estado de alma, enfim… num mundo celeste que raramente visito, mas onde facilmente me adapto e me completo.
- Então e porque não descubro em ti a luz do teu sorriso? – contrapõe-me o corpo celeste.
- Oh, tal como as marés, o meu sorriso enche e esvazia ao sabor da lua – respondo-lhe eu, fitando a sua magnificência.
- Ah, já percebi… agora me lembro que da última vez que estive com o meu querido Sol, ele falou-me de ti. Disse-me que te visitou numa bela manhã, e que te deu alguns conselhos para acordares, aproveitares, e viveres o teu sonho de uma forma bem real. Não o fizeste? – pergunta-me a Lua visivelmente curiosa.
- Fiz sim, e resultou… vivi um sonho bem real do qual desejava não acordar nunca. Por isso agradeço-lhe as suas palavras de encorajamento, que tanta felicidade imprimiu em mim. Mas como nem tudo são rosas, e como um sonho nem só de rosa se constrói, espero que a penumbra que se abate sobre o meu mundo, seja apenas o início de um eclipse eterno, e que não se torne numa temida escuridão.
- Sim, tal como o Sol te disse, e volto a recordar, se lutares pelo que sonhas e mostrares à tua Lua que estarás sempre aí para a iluminar, a felicidade que vives nos teus sonhos pode ser real. Basta então que ela te corresponda, reúna forças, e que por fim realizem o vosso próprio eclipse. A única distinção é que vocês não estarão condenados a um momento passageiro como o nosso.
- Pois, o problema é que enquanto o eclipse roçava a perfeição, algo se alterou na superfície da terra, e quando tentei assentar nela, não me segurei, resvalei e perdi o rasto ao meu ar – retorqui-lhe eu, visivelmente abatido.
A Lua, na sua eterna compaixão e serenidade, levanta-me o rosto, despenteia-me o cabelo, recordando-me outros momentos, e revela-me:
- Tal como eu e o planeta em que vives, a vida dá muitas voltas, e tão depressa estás na escuridão da noite, como na luz do dia. Por isso não desistas, tens duas hipóteses: ou esperas que essa luz te alcance, ou vais na demanda dela. Faças o que fizeres, a luz chegará na altura adequada, e iluminará o teu coração como nunca.
Com maior alento devido às palavras que acabara de ouvir, e para não sufocar com a falta de ar com que me fazia sentir, inspirei fundo e deitei-me com a esperança que o amanhã me sorria.
- Obrigado Lua – agradeci…
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